Para celebrar o aniversário dos vinte anos da atribuição ao Prémio Nobel da Literatura português José Saramago, venho recomendar fortemente como sugestão de leitura uma das suas obras intitulada "Caim".

Neste romance publicado no ano de 2009 da autoria do famoso génio literário português desenlaça-se uma narrativa, na qual é centrada a figura bíblica que é Caim. É feita uma crítica a nível teológico com base numa interpretação literal do antigo testamento da Bíblia cristã.

A história vêm essencialmente questionar a natureza de deus e a forma como ele é representado na bíblia. Sendo esta uma redacção com quase dois mil anos de idade transmitida ao longo de inúmeras gerações, encontra-se sujeita a alterações de princípios e influências culturais dos diferentes períodos da história, é inevitável reconhecer que o texto da Bíblia está na sua origem intrinsecamente ligado à cultura da época em que foi passada para o papel. Em concordância com esta lógica seguro está afirmar que o tipo de escrita deste livro milenar, principalmente na parte a que pertence a simbologia religiosa e a tentativa da sua interpretação literal é de facto um tanto quanto desactualizada, recorrendo de certa forma para um termo mais eufemista no uso do adjectivo. 

José Saramago pretende então satirizar o deus bíblico que neste romance é representado como cruel, invejoso e insuportável. Para esta concepção, faço alusão a uma das situações que considero cruciais da história, especificamente na altura em que Caim comete fratricídio e acaba com a vida de seu irmão Abel. Neste momento em específico deus aparece perante Caim e julga-o acerca do seu acto alimentado por inveja, este, por sua vez retorque que Deus é o culpado do sucedido por ter-lhe destruído a vida e ter criado a situação que causaria tal trágico desenrolar de acontecimentos. De certo modo esta variação do Caim da bíblia criado por Saramago, pretende questionar a motivação do senhor, como este é denominado neste livro. A questão máxima circula sempre à volta de "Como foste capaz de deixar que eu matasse meu irmão, quando estava nas tuas todas poderosas mãos, evitá-lo".

Com este tipo de engenhosas desconstruções da imagem soberana e inatingível do deus cristão, o nobel consegue de uma maneira criteriosa demonstrar que a bíblia e o seu texto, sendo uma concepção humana, herda a nossa condição! Muito difere da divina. Portanto não é fiel interpretá-la de tal forma incontestável.

Os mais religiosos dirão que a Bíblia não poderá ser interpretada de uma maneira literal, quase como por oposição, na minha óptica é de extrema importância manter uma mente aberta quanto a esta tipologia de assuntos como é o caso da religião, pois deste modo é que os massacres históricos em nome de inúmeras crenças como tanta vez aconteceu no passado darão lugar a discussões racionais e entendimento entre as diferentes ideologias. 

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